Fenómeno de baja presión provoca tempestad en región del desierto de Atacama (Radio Francia Internacional Portugués)

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(Radio Francia Internacional Portugués, 30 de marzo) Por Augusto Pinheiro

O Chile viveu na semana passada uma tragédia, com pelo menos seis mortos e 19 desaparecidos, provocada por um fenômeno climático extremamente raro. Fortes chuvas caíram sobre a região do Atacama, no norte do país, considerada a mais árida do mundo e que abriga o deserto de mesmo nome. A tempestade provocou inundações em várias localidades devido à cheia de rios que permaneceram secos por anos. Como explicar chuvas torrenciais sobre uma zona desértica?

«O que acabou formando essas chuvas extremanente extraordinárias foi a passagem de um ciclone, nos altos níveis da atmosfera, uma área de baixíssima pressão, que costuma se deslocar muito mais ao sul. Esse tipo de sistema meteorológico geralmente passa ao sul dos 35 graus de latitude. Esse passou ao norte, próximo dos 25 graus de latitude, ou seja, 10 graus mais ao norte. Passou com uma grande intensidade como um vácuo no ar na alta atmosfera que suga o ar de baixo para cima», explica o doutor em meteorologia Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, com sede em Cachoeira Paulista (SP).

E continua: «Isso possibilitou à pouca umidade disponível ir a grandes alturas, interagindo com a Cordilheira dos Andes. Na verdade, os maiores volumes de chuva foram na encosta da cordilheira, descendo com muita força, provocando enxurradas muito fortes».

Umidade veio do Equador

O climatologista chileno Roberto Rondanelli, do Centro de Ciência do Clima e da Resiliência, em Santiago (Chile), explica de onde veio a umidade que provocou chuvas em um local tão seco. «A umidade estava no Equador, e o fenômeno de baixa pressão foi suficientemente profundo e chegou suficientemente ao norte para que a própria circulação do fenômeno conseguisse levar a umidade à parte dianteira da Cordilheira dos Andes. Então, levou umidade e também altas temperaturas para acima dos 2000 metros, chegando a 5000 metros. E tudo caiu como precipitação, como água. Na cordilheira, que é em geral um reservatório de neve, quando ocorrem esses sistemas, cai neve de alturas acima de 2000 metros. Portanto não se enchem os leitos dos rios com água líquida. Mas desta vez a temperatura era muito elevada e, portanto, muitos rios se encheram rapidamente de água, provocando as enxurradas.»

O deserto do Atacama, que é uma das principais atrações turísticas do Chile pela beleza das suas paisagens, conta com uma barreira natural contra a umidade, por isso quase nunca chove na zona. «É uma região extremamente seca e fria, embora esteja próxima ao oceano Pacífico. Portanto não há umidade disponível para formar tempestades. Existe também a Cordilheira dos Andes, que funciona como uma parede que não deixa passar a umidade, por exemplo, da região central do Brasil e do Atlântico. É uma zona confinada em uma estreita faixa de ar muito seco e sem possibilidade de intercambiar umidade com a parte amazônica», diz Seluchi.

Inversão climática entre norte e sul

Na tempestade da semana passada, choveu em um dia mais de100 vezes mais do que costuma chover em um ano na zona afetada do norte do Chile. Mas não foi apenas a tempestade no norte que surpreendeu os chilenos na semana passada. Na verdade, ocorreu uma inversão das condições climáticas normais nos dois extremos do país sul-americano. «O Chile está vivendo uma situação muito particular porque enquanto está chovendo muito ao norte, onde há um dos desertos mais secos da Terra, na parte sul há incêndios de bosques patagônicos milenares. E o sul é uma região onde costuma chover muito. Então houve nas últimas semanas um deslocamento de todas as áreas de baixa pressão, que foram muito mais para o norte», afirma Seluchi.

O aquecimento global e a mudança climática do planeta não estão diretamente relacionados ao fenômeno do Atacama, segundo os especialistas, mas podem ter influenciado na força da tempestade. «Eles poderiam fazer com que o fenômeno fosse um pouco mais violento do que normalmente, simplesmente porque, quando há temperaturas mais altas, há mais vapor de água na atmosfera. Portanto há mais disponibilidade de água para que haja precipitações», , diz o chileno Roberto Rondanelli.

Os dois lembram ainda que o fenômeno não é inédito e que há cerca de 40 anos a região sofreu inundações semelhantes.

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